Qual a diferença entre astronomia e astrologia?

A astronomia e a astrologia têm muitas raízes em comum, mas se divergiram na Renascença. Em que momento a astrologia se tornou astronomia?
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A resposta pode aparentar evidente. A astronomia e a astrologia, embora relacionadas nas suas origens e no contexto histórico, são hoje fundamentalmente diferentes na sua abordagem e objetivos.

A astronomia é a ciência que estuda os objetos e fenômenos celestes (como planetas, estrelas e galáxias) e suas propriedades. É uma ciência que, por meio do método científico e evidências, busca respostas e cria modelos matemáticos para a evolução, a física, a química, a dinâmica e o movimento dos corpos celestes e a evolução do Universo.

A astrologia, por outro lado, é um sistema de crenças que sugere a existência de uma relação entre as posições e movimentos dos corpos celestes e os eventos na Terra, incluindo a vida e os assuntos humanos. Ela diz que o posicionamento das estrelas e dos planetas no momento do nascimento pode influenciar sua personalidade, relacionamentos, sucesso profissional e outros aspectos da vida.

Mas nem sempre houve essa divisão. A astronomia e a astrologia têm um ponto de origem em comum nas antigas civilizações, época onde os fenômenos da natureza e as crenças religiosas eram praticamente indistinguíveis. Sem uma explicação científica, os fenômenos astronômicos (como eclipses solares e as fases da lua) eram vistos com um significado sobrenatural.

Vamos nos aprofundar na história do surgimento da astronomia moderna.

As antigas civilizações

As primeiras grandes civilizações, como o Antigo Egito e da região da Mesopotâmia, usavam a posição dos astros para a navegação e como forma de medir a passagem do tempo, marcando as estações do ano — crucial para a agricultura e a subsistência.

O céu do hemisfério norte, mapeado pelos povos sumérios há 5.500 anos.

Os primeiros registros de observações astronômicas datam de 3000 a.C. pelos povos sumérios da Mesopotâmia. Nesses registros, foram mapeados o movimento dos planetas e a posição das estrelas, originando os primeiros mapas celestes. Essas observações serviam para dois propósitos básicos: para a agricultura e navegação, e também para motivos espirituais, de previsão do futuro ou tomada de decisão.

Várias outras civilizações antigas, incluindo os egípcios, os maias, os chineses e os indianos, fizeram contribuições significativas para o desenvolvimento inicial de ambos os campos.

Mapa de Dunhuang, da antiga China (649–684 d.C.)

Os maias desenvolveram um complexo sistema de calendário que combinava observações astronômicas com interpretações astrológicas, influenciando a agricultura, os rituais e o planejamento urbano. Na antiga China, a astronomia estava intimamente ligada à astrologia, com o imperador frequentemente participando de rituais destinados a alinhar os reinos terrestre e celestial. A astronomia egípcia estava profundamente integrada com suas crenças e práticas religiosas, onde as estrelas desempenharam um papel crucial nas crenças da vida após a morte, com as pirâmides dos faraós alinhadas para facilitar a sua ascensão aos céus.

Os signos do Zodíaco

Constelações do Zodíaco, mapeadas pelos antigos povos babilônicos.

A práticas astronômicas dos povos babilônicos estavam profundamente ligadas com suas crenças religiosas e também eram usadas para adivinhação e cronometragem de rituais. Os signos foram baseados nos asterismos (constelações) que ficam ao longo da eclíptica, o caminho aparente do Sol no céu ao longo do ano. Os babilônios observaram que a eclíptica estava dividida em 12 partes quase iguais, cada uma marcada pela constelação onde o Sol nascia em meses sucessivos. Essas divisões forneceram a base para o Zodíaco.

Os gregos adotaram o Zodíaco Babilônico durante o período helenístico, após as conquistas de Alexandre, o Grande, que colocaram a cultura grega em contato com a ciência babilônica. A adaptação grega do Zodíaco incluiu não apenas a divisão da eclíptica em 12 signos, mas também o desenvolvimento da astrologia horoscópica, que utiliza as posições dos planetas e do ascendente, além do signo solar, para fazer previsões. Os romanos adotaram o Zodíaco dos gregos e nomes latinos foram dados aos signos do Zodíaco, sendo usados ainda hoje.

Cada um dos 12 signos do Zodíaco está associado a uma constelação, embora devido à precessão dos equinócios, os signos e constelações já não se alinhem perfeitamente. Por exemplo, o signo de Aquário contempla o período de 20 de janeiro a 19 de fevereiro, no entanto, o Sol só passa pela constelação de Aquário entre 16 de fevereiro e 12 de março.

Os signos são: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes.

As constelações zodiacais são as cortadas pela eclíptica: o caminho aparente do Sol na esfera celeste.

Os limites das constelações modernas foram definidos pela União Astronômica Internacional (IAU) em 1928, muito após os signos astrológicos do zodíaco terem sido estabelecidos. Estas fronteiras mostram que o Sol passa pela constelação de Ofiúco depois de Escorpião e antes de Sagitário — ironicamente, o Sol passa mais tempo em Ofiúco do que Escorpião. A constelação de Ofiúco não está incluída no zodíaco tradicional devido às suas origens na astronomia babilônica, ao desenvolvimento da astrologia ocidental baseada no zodíaco tropical e ao desejo de manter um sistema harmonioso que se alinhe com as quatro estações da Terra.

Renascença: o nascimento da astronomia moderna

A divergência entre astrologia e astronomia em disciplinas distintas está enraizada em publicações, descobertas e fatos importantes que lançaram as bases para a astronomia moderna. Esta transformação foi, em grande parte, alimentada pela Revolução Científica no final do período renascentista, que durou dos séculos XVI a XVIII. Astrônomos como Copérnico, Galileu, Kepler e Newton introduziram um modelo heliocêntrico do sistema solar e desenvolveram leis de movimento e gravitação universal.

Toda a astrologia antiga foi baseada no conceito geocêntrico: a Terra no centro do Universo, com os planetas e estrelas se deslocando como esferas ao redor. Em 1543, Nicolau Copérnico propôs em sua publicação De revolutionibus orbium coelestium (“Da revolução das esferas celestes”, em tradução livre) um modelo heliocêntrico do universo, colocando o Sol, e não a Terra, no centro. Isso desafiou o modelo geocêntrico que dominou o pensamento astronômico durante séculos e lançou as bases para uma grande mudança de paradigma.

Astronomia Nova (1609), de Johannes Kepler.

O dinamarquês Tycho Brahe (1546–1601) fez as observações astronômicas mais precisas de sua época, sem o auxílio de um telescópio. Os seus registos detalhados das posições planetárias desafiaram os modelos astronômicos existentes e forneceram os dados necessários para o seu assistente, Johannes Kepler, formular as suas leis do movimento planetário e suas duas grandes obras: Astronomia Nova (1609) e Harmonices Mundi (1619). Kepler usou as observações de Brahe para desenvolver suas três leis do movimento planetário, que descreviam as órbitas dos planetas como elipses em vez de círculos perfeitos. Essas leis são fundamentais para a mecânica celeste e a astronomia modernas.

Galileu Galilei (1564–1642) foi um dos primeiros a usar um telescópio para fazer observações astronômicas. Ele descobriu as quatro maiores luas de Júpiter (hoje chamadas “luas galileanas”), as fases de Vênus e as crateras da Lua, fornecendo fortes evidências contra o modelo geocêntrico e apoiando o sistema copernicano.

O Principia Mathematica é, talvez, uma das mais importantes obras científicas feitas.

Em 1687, Isaac Newton publicava o famoso Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (“Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”, em tradução livre), também conhecido apenas como Principia. Nele, Newton formulou as leis do movimento e da gravitação universal, que não apenas explicaram as leis do movimento planetário de Kepler, mas também forneceram uma estrutura teórica abrangente que descreveu o movimento dos objetos tanto na Terra quanto nos céus. Seu trabalho representa uma pedra angular da mecânica clássica e da física moderna.

Além das revoluções na área da mecânica celeste, o Principia Mathematica também revolucionou em áreas da matemática, como o cálculo integral e diferencial. Sua abordagem empírica da ciência, a insistência na prova matemática e a unificação do conjunto de leis mudaram a forma como a natureza era estudada.

No século 19, o surgimento da espectroscopia, o estudo da interação entre matéria e radiação eletromagnética, possibilitou analisar a composição de estrelas e outros objetos celestes. Isto marcou um avanço significativo na astronomia, permitindo aos cientistas determinar a composição e propriedades das estrelas e a estrutura das galáxias — distanciando ainda mais o campo das interpretações astrológicas.

A astrologia, hoje…

Com o desenvolvimento do método científico e, consequentemente, da astronomia moderna, pelos nomes e obras já citadas anteriormente, o lado místico e espiritual da astrologia se manteve em um ramo independente das pseudociências. O conhecimento científico não é estático, ele evolui com novas descobertas e evidências. A astrologia, no entanto, não mudou ou se adaptou em resposta às novas descobertas astronômicas. Por exemplo, a descoberta de novos planetas e o rebaixamento de Plutão do status de “planeta” não alteraram as práticas ou interpretações astrológicas.

Um típico mapa astral da astrologia ocidental.

As interpretações astrológicas podem ser altamente subjetivas, variando significativamente de um astrólogo para outro. Ao contrário das teorias científicas, que são consistentes e reproduzíveis, as interpretações astrológicas muitas vezes dependem da intuição do praticante e da leitura pessoal dos mapas astrológicos, levando a resultados inconsistentes e não reproduzíveis.

A astrologia depende de declarações vagas e generalizadas que podem ser aplicadas a uma ampla gama de pessoas — um fenômeno conhecido como efeito Forer (ou efeito Barnum). As pessoas tendem a lembrar-se das previsões precisas e esquecer as imprecisas, um viés cognitivo conhecido como viés de confirmação. Estes preconceitos podem fazer com que a astrologia pareça mais válida do que é, mas não estão em conformidade com os padrões científicos de evidência e reprodutibilidade.

Existem muitas outras razões não abordadas nessa matéria que explicam porque a comunidade científica classifica a astrologia como uma pseudociência. Isso não significa que a astrologia não tenha significado cultural, histórico ou pessoal para muitas pessoas, mas significa que a astrologia não atende aos critérios exigidos para ser considerada uma disciplina científica.

Embora a astrologia e a astronomia tenham se originado do mesmo desejo humano de compreender o universo, elas divergiram significativamente ao longo dos séculos, principalmente após o século XVI. A astronomia tornou-se uma ciência de rigor matemático com a ajuda dos avanços tecnológicos e do método científico, com foco na compreensão do funcionamento do universo. A astrologia, no entanto, continuou a ser um sistema de crenças que interpreta os movimentos celestes misticamente, como influenciando os assuntos humanos, sem o apoio de evidências.

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HOSTI, B. P. Qual a diferença entre astronomia e astrologia?. Espaço-Tempo, 2024. Disponível em: https://www.espacotempo.com.br/qual-a-diferenca-entre-astronomia-e-astrologia. Acesso em: 24 abr. 2024.

Brunno Pleffken Hosti

Professor. Graduado em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Extensão em Astrofísica pelo IAG/USP e pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador nas áreas de astrofísica observacional e espectroscopia.

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