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Teletransporte: é realmente possível?

Da ficção para a ciência... ou quase. Teletransportes como em Jornada nas Estrelas são fisicamente possíveis?

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Afinal, quem nunca se atrasou para o trabalho ou pegou um congestionamento imenso e imaginou “como seria bom ter um teletransporte nesse momento”? O teletransporte apareceu em Jornada nas Estrelas: A Série Clássica uma solução adotada para o baixo orçamento. Ao invés de montar maquetes e gastar dinheiro com efeitos especiais de naves decolando e pousando, as pessoas simplesmente seriam desintegradas em um ponto e teriam seus átomos reintegrados em outro ponto. Bem mais fácil e barato de se produzir. Mas o teletransporte não ficou somente na imaginação dos roteiristas da série e acabou se tornando uma discussão dentro da física teórica.

Afinal, seria o teletransporte realmente possível?

Como funcionam [teoricamente]?

O teletransporte funciona de maneira que um objeto ou pessoa pode ter sua estrutura molecular mapeada e armazenada em um supercomputador, decomposta em nível subatômico e, em seguida, recomposta em um outro local. O senso comum é de que a matéria, os átomos, são transportados fisicamente de um local a outro. Não é dessa forma que o teletransporte funciona. Toda a informação sobre sua estrutura molecular seria transmitida, e não seus átomos, de forma bastante análoga em como podemos transmitir um texto do Word via e-mail à uma outra pessoa para ela imprimir, ao invés de enviar o papel por correspondência. Usando a informação transmitida, os átomos são reorganizados diretamente no local de destino para te remontar, próton por próton, elétron por elétron. Mas, ao analisar o teletransporte com um olhar um pouco mais clínico, nos deparamos com uma grande quantidade de implicações e inconsistências, tanto científicas como morais.

Vamos começar pelas implicações científicas.

O princípio da incerteza de Heisenberg

Werner Karl Heisenberg
Werner Karl Heisenberg

O princípio da incerteza de Heisenberg é um enunciado representado por uma inequação matemática desenvolvida pelo físico alemão Werner Karl Heisenberg, um dos pioneiros da mecânica quântica e laureado do prêmio Nobel de Física de 1932, que dita que é impossível de se definir, simultaneamente, a posição e o momento de uma partícula. Na física quântica, é um limite fundamental determinar precisamente a posição e o momento de uma partícula simultaneamente.

Como analogia: nós conseguimos medir a posição exata da bola preta, mas não a posição da bola branca — no entanto, podemos estimar sua velocidade.

Gosto bastante de uma analogia que costumo usar para explicar o princípio da incerteza. Imagine uma mesa de bilhar, da qual eu tiro uma fotografia do momento exato onde uma primeira bola branca espalha todas as outras bolas coloridas pela mesa. Se eu tirar uma fotografia em alta velocidade de obturador as bolas parecerão congeladas no tempo, mas será impossível discernir se elas estão paradas ou se movendo — eu tenho a posição exata de cada bola na fotografia, mas não a velocidade. Agora, se eu tirar uma fotografia de exposição longa, como 1 segundo de exposição, as bolas aparecerão borradas na imagem por causa do movimento. Agora eu consigo identificar a velocidade das bolas de bilhar, se estão se movendo ou não, e até mesmo qual velocidade, mas não consigo identificar a posição exata de cada uma.

$$\Delta x \Delta p \geq \frac{\hbar}{2}$$

O princípio da incerteza de Heisenberg funciona da mesma forma. Matematicamente, é impossível determinar, simultaneamente, a posição e o momento de uma partícula. Isso torna o desenvolvimento da tecnologia do teletransporte extremamente problemático, pois eu não conseguiria escanear todas as partículas de uma pessoa e armazenar em um computador as informações básicas de seu estado para que pudesse remontá-la depois, sem perdas, já que nós nunca saberemos onde um elétron realmente está. Se você tentar medir a posição de um único elétron, você mudará sua velocidade; se você descobrir exatamente o quão rápido ele está se movendo, você não saberá onde ele está.

O princípio da incerteza: quanto mais precisa a medição de momento, menos precisa é a medição da posição (e vice-versa).

Jornada nas Estrelas, em sua criatividade, inventou um equipamento chamado “compensador Heisenberg” como uma forma de contornar o problema do princípio da incerteza da qual os consultores científicos da série estavam bem cientes. Considero uma ideia extremamente criativa, e acho também muito louvável que os consultores e produtores da série tenham conhecimento das implicações da física quântica envolvida no teletransporte, mas infelizmente não podemos quebrar as leis da física, elas são universais. O princípio da incerteza vale aqui na Terra, ou em Alpha Centauri; agora, no século XXI, ou no século XXIV de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração. Quando perguntado pela revista Time, em 1994, “como os compensadores Heisenberg funcionam?”, o consultor da série, Michael Okuda, simplesmente respondeu “eles funcionam muito bem, obrigado”.

Implicações morais

Uma outra questão pouco abordada sobre o teletransporte são suas implicações morais, afinal, ao ser teletransportada, quem é a pessoa que chegou do outro lado? Vamos supor que já tivéssemos a tecnologia para teletransporte. Uma pessoa sobe na plataforma e dá o comando, “energizar” ou algo do tipo e suas moléculas começam a ser decompostas a nível subatômico. Podemos chegar em um consenso de que o ser humano que foi desintegrado foi, em tese, morto? Afinal, suas ligações moleculares foram rompidas uma-a-uma, seus átomos foram desintegrados um por um, como se seu corpo estivesse lentamente se transformando em um estado de plasma. A pessoa que foi reconstruída do outro lado do teletransporte não é exatamente você, e sim uma cópia exata de você reconstruída artificialmente, com exatamente a mesma estrutura molecular: aparência, comprimento do cabelo, cicatrizes, lembranças (a memória nada mais é do que neuroquímica) e até sua personalidade, seu jeito de falar e seus sentimentos. Mas é você? Não é — lembre-se que apenas a informação sobre sua estrutura molecular foi transmitida. A pessoa que você é nesse momento, com sua alma (quer você acredite nisso ou não) e seu pleno estado de consciência foi desintegrada em nível subatômico para sempre. Somos seres reduzidos puramente à matéria bariônica replicável.

Teseu, e seu colega Minotauro.

Para jogar um pouco mais de sal nessa complexidade ética e moral do teletransporte, quero contar a você um paradoxo proposto pelo filósofo grego Plutarco (46-120 d.C.). Se chama paradoxo do Navio de Teseu, um grande herói da mitologia grega, cujo maior feito foi derrotar o Minotauro no labirinto de Creta.

Teseu parte de navio em uma longa viagem pelo mundo do ponto A para o ponto B. A viagem dura mais de 50 anos, então, cada vez que uma ripa de madeira apodrece, essa peça é substituída por uma nova. Segue-se substituindo as peças velhas por peças novas até que todas as ripas de madeira foram substituídas. Eis o paradoxo: o navio que chegou no ponto B é o mesmo que partiu do ponto A ou é um navio novo? Se for um navio novo, em que momento o navio que partiu deixou de ser o navio de Teseu? Quando, digamos, 50% de suas ripas de madeira foram substituídas? E vamos ainda mais além, vamos supor que tenhamos guardado no porão todas as ripas de madeira antigas e desgastadas, de forma que seja possível remontar o navio original com a madeira original. Qual dos dois será o verdadeiro navio de Teseu?

O paradoxo do navio de Teseu
Um navio parte em uma longa viagem. Suas partes envelhecem e são substituídas (navio B). As partes velhas são remontadas, formando o navio C. Qual deles é o verdadeiro navio de Teseu?

Deixo a conclusão das implicações éticas e morais para você, meu querido leitor, discernir. Com certeza poderíamos, quando tivermos o conhecimento científico e a tecnologia necessária, transportar objetos inanimados, como equipamentos eletrônicos e suprimentos, mas quando se trata de transportar pessoas e outras formas de vida vemos que a situação se complica um pouco. O teletransporte é, em tese, assassinato?

Jornada nas Estrelas: A Nova Geração - "Second Chances"
O episódio “Second Chances”, de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração aborda esse ponto: e se a informação da estrutura molecular de uma pessoa ficar armazenada acidentalmente? Qual dos dois é o verdadeiro William Riker?

Se eu armazenar em um supercomputador toda a sua estrutura molecular e te recriar em qualquer momento, qual das duas pessoas é você? (Até porque essa outra pessoa não é necessariamente um clone, terá exatamente suas lembranças, sentimentos e se auto-identificará como você). Podemos, futuramente, desenvolver toda a tecnologia necessária para transportar matéria do ponto A para o ponto B e descobrir maneiras de se contornar as leis da física que, atualmente, servem de barreira, no entanto, transportar seres humanos sencientes certamente será uma situação questionável e um tópico central na discussão sobre direitos humanos, espiritualidade e muitos tentarão responder à questão… quem realmente foi materializado do outro lado?

Brunno Pleffken Hosti

Professor. Graduando em Licenciatura em Física pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Extensão em Astrofísica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Editor do Espaço-Tempo.

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